A Escadaria - Capítulo I
Thomas Pain não havia sequer subido uma volta completa na escadaria quando teve que parar. Um enorme e belíssimo portão de aço bloqueava a passagem para o degrau seguinte. Ele observou que a peça se erguia desde um degrau de pedra até o teto, e era bem fixo às paredes. Apesar de não ter cadeado que impedisse as folhas do portão de se abrirem, Thomas percebeu que ele estava trancado ao tentar movê-lo.

Thomas Pain não conseguia fechar a boca, mas dessa vez, o motivo do espanto era outro: o contraste daquele lugar de paz com o inferno que vira em guerra. Ele suspeitava que o jardim não fizesse parte do mesmo plano de seu mundo, pois em dezoito (ou dezessete, ou dezenove) anos de vida, nunca vira nada sequer parecido onde vivia.
Andou pelo prado e sentiu o aroma perfumado de frutos no pomar, e das flores na grama. Sentiu a brisa e o calor suave do sol. Entretanto, apesar da beleza do lugar, e da paz que transmitia, Thomas se sentiu esquisito. Desconfiado. A vida o ensinara a ser desconfiado. Tinha algo errado ali, e ele só precisava descobrir o que era.
Continuou caminhando cautelosamente, olhando para os lados a cada segundo, até subir a colina. Imaginou que de lá de cima, poderia descobrir mais sobre o lugar em que estava e o que raios tinha pra fazer ali.

Segurou firmemente uma das barras de aço da grade central e puxou com toda força. Inútil. Agitou, tentou levantar, forçou para separar as barras, nada deu certo. O portão continuava imperturbável no meio do caminho. Não dava para escalá-lo, pois não havia abertura lá em cima. Resignou-se a olhar pelas barras da grade, para ver se havia alguma coisa interessante do outro lado, mas haviam apenas os degraus, que continuavam subindo e fazendo uma volta.
Thomas sentiu-se um pouco frustrado. A mensagem na parede não lhe dizia para subir?! Talvez tivesse lido algo errado. Assim que girou para poder descer os degraus e conferir, ele se deparou com um portal, cravado na parede externa da torre, coberto de cima a baixo por uma cortina preta.
Ele estacou. A porta não estivera lá antes, ele tinha certeza. Assim como a mensagem pintada. De um modo ou de outro, ele acreditava não ter muita opção. Ou descia e saía para ver seu mundo destruído novamente, ou cruzava a cortina e caía da torre, já que, por lógica, a porta deveria dar para o lado de fora do edifício.
Mas é claro que não foi isso que aconteceu. No momento em que Thomas cruzou o portal, ele se viu em um jardim ensolarado e silencioso.
Tudo o que conseguia escutar era o som de um casal de pássaros voejando em um pomar. O gramado era de um verde vivo, pontilhado de flores multicoloridas. Um córrego serpenteava mais ao longe, perto de uma colina. E ainda mais ao longe altas montanhas, algumas até mesmo nevadas.
Thomas sentiu-se um pouco frustrado. A mensagem na parede não lhe dizia para subir?! Talvez tivesse lido algo errado. Assim que girou para poder descer os degraus e conferir, ele se deparou com um portal, cravado na parede externa da torre, coberto de cima a baixo por uma cortina preta.
Ele estacou. A porta não estivera lá antes, ele tinha certeza. Assim como a mensagem pintada. De um modo ou de outro, ele acreditava não ter muita opção. Ou descia e saía para ver seu mundo destruído novamente, ou cruzava a cortina e caía da torre, já que, por lógica, a porta deveria dar para o lado de fora do edifício.
Mas é claro que não foi isso que aconteceu. No momento em que Thomas cruzou o portal, ele se viu em um jardim ensolarado e silencioso.
Tudo o que conseguia escutar era o som de um casal de pássaros voejando em um pomar. O gramado era de um verde vivo, pontilhado de flores multicoloridas. Um córrego serpenteava mais ao longe, perto de uma colina. E ainda mais ao longe altas montanhas, algumas até mesmo nevadas.

Thomas Pain não conseguia fechar a boca, mas dessa vez, o motivo do espanto era outro: o contraste daquele lugar de paz com o inferno que vira em guerra. Ele suspeitava que o jardim não fizesse parte do mesmo plano de seu mundo, pois em dezoito (ou dezessete, ou dezenove) anos de vida, nunca vira nada sequer parecido onde vivia.
Andou pelo prado e sentiu o aroma perfumado de frutos no pomar, e das flores na grama. Sentiu a brisa e o calor suave do sol. Entretanto, apesar da beleza do lugar, e da paz que transmitia, Thomas se sentiu esquisito. Desconfiado. A vida o ensinara a ser desconfiado. Tinha algo errado ali, e ele só precisava descobrir o que era.
Continuou caminhando cautelosamente, olhando para os lados a cada segundo, até subir a colina. Imaginou que de lá de cima, poderia descobrir mais sobre o lugar em que estava e o que raios tinha pra fazer ali.
Mas quando chegou ao topo da colina, só pode constatar que a paisagem verdejante e calma em que se encontrava continuava até onde os olhos podiam enxergar. Olhou com mais atenção, de um lado para o outro, procurando um sinal de desordem, catástrofe, malignidade.
Nada. O lugar era um paraíso, e pronto.
Mas então ele resolveu olhar pra cima, e ao fazê-lo, os pêlos todos de seu corpo se arrepiaram.
Tinha algo de errado com o sol. Ele estava no centro do céu, indicando o meio-dia. De fato, ele estava iluminando tudo normalmente, e, de fato, estava aquecendo tudo normalmente. Mas ao invés de ser uma esfera amarelada e brilhante como se esperava, aquele sol estava negro. Negro como a mais completa escuridão, e aquilo era impossível! Thomas ficou sem reação, sem compreender como aquele globo obscuro que estava no lugar do sol poderia desempenhar sua função. Aquele sol sinistro parecia um rombo no meio do céu. Um buraco para a morte, coroado por raias brilhantes. E parecia puxar, sugar as forças. O sol normal só ofuscava quando se olhava diretamente para ele, mas aquela imitação perversa parecia querer matar, sufocar quem ousasse avistá-lo.
Thomas desviou o olhar, com o coração batendo rápido de medo, e desceu a colina correndo, querendo nada mais do que alcançar o portal e voltar para a escadaria. Não devia ter feito isso. Como se alguma maldição tivesse sido lançada sobre o sol negro, ele começou a crescer e se aproximar, como se estivesse em rota de colisão com o jardim. Olhar para trás uma vez foi o suficiente para Thomas.
Ele correu como nunca antes, mas o portal não estava mais lá. Para variar.
"Aquela coisa quer me puxar, quer me engolir. Eu vou morrer lá dentro!", pensava ele, deseperado, virando-se freneticamente em busca da porta. A esfera maldita continuava crescendo e se aproximando, descendo verticalmente sobre o rapaz. Já tomara conta de quase todo o céu acima, mas continuava iluminando. O jardim parecera não se incomodar que o astro bizarro estivesse próximo de engolir toda a terra.

Thomas olhou mais uma vez para o centro escuro do sol, e entrou em pânico. Tornou a correr, mas tropeçou em algo no chão, perto de um dos pomares. Caiu de barriga na grama fofa, e ao se levantar apressado para continuar sua fuga, percebeu que a coisa que o fizera tropeçar não era uma pedra, um galho ou algo assim. Era o seu punhal. Fincado no chão, esperando ser tirado dali para lutar.
O jovem ficou estupefato com a coincidência (ou não) e a sorte de tê-lo encontrado. Não hesitou, o círculo preto que parecera ser um inocente sol no céu estava a poucos metros dele agora. E Thomas sentiu, por instinto, que se aquela coisa o alcançasse, ele morreria.
Num só movimento, puxou o punhal do solo, deitou-se virado para cima e atacou o breu, com um golpe comprido, para rasgar.
Mais surreal ainda foi perceber que o golpe funcionara. Apesar de não estar perto o suficiente, e apesar de parecer um buraco, o que faria o ataque se tornar inútil, o sol falso estava rasgado. Um corte só, de cima a baixo, como se fosse feito de pano. Do rasgo, saiu uma luz branca, que delineou ainda mais o contorno do estrago causado pelo punhal de Thomas. E então, num só movimento, como uma flecha atirada por um arco, o sol rasgado subiu de novo, diminuindo de tamanho e retornando à sua posição no centro do firmamento. Thomas olhava tudo deitado, apoiado nos cotovelos, e boquiaberto. Lá em cima, o rasgo no sol piscou, e alguma coisa caiu dele. Algo muito pequeno, que pousou atrás da colina. Então, o astro inteiro piscou e desapareceu, deixando para trás apenas uma repentina noite estrelada.
Thomas olhou muitíssimo grato para sua arma recuperada, e a guardou no cinto, enquanto corria para a colina para ver o que tinha caído do rombo. Parecia uma idéia imbecil e pouco sensata, mas o rapaz já não sentia mais a malignidade no ar. A sensação de que algo estava errado tinha ido embora assim que aquele sol negro desaparecera e ele recebera a primeira lufada da brisa noturna. Não que o dia ter virado noite em um segundo parecesse normal, mas Thomas já começara a perceber que teria que aceitar os absurdos que aquela jornada insistia em proporcionar.
Ele chegou ao outro lado da colina, e sobre o gramado se encontrava uma chave de ferro, bonita, pesada e reluzente. Uma chave.
Mas onde estava a fechadura? Thomas tinha um palpite, e ficou satisfeito em descobrir que acertara, pois assim que voltou para o lado original da colina, avistou o portal que primeiramente o levara até ali. Ele aparecera de novo, pois agora Thomas completara sua missão naquele lugar, e podia sair.
Sem nem mesmo parar para admirar uma última vez aquele paraíso, ele atravessou a cortina preta, e se viu novamente no degrau da escadaria que ficava ao lado do portão trancado. No momento em que voltou à torre, o portal com a cortina desapareceu, deixando a parede de pedra sólida da torre de volta em seu lugar. À sua frente, na outra parede, aparecera mais uma mensagem pintada: "NÃO SERÁ TÃO FÁCIL DAQUI EM DIANTE"
Mas Thomas não se surpreendeu. Já concluira aquilo.
Virou-se para o portão e, como imaginara, uma fechadura tinha aparecido, no centro das barras. Ele deu um suspiro de alívio, acalmando os nervos e tentando tirar a visão horrível daquele sol maldito de sua mente. Então enfiou a pesada chave na fechadura e a girou.
O portão se abriu para os lados, sem rangir, permitindo a passagem.
Thomas guardou a chave num dos bolsos, leu novamente a mensagem fatídica ao seu lado e continuou sua subida pela escadaria. Uma etapa fora vencida. Ele não entedera muito bem o propósito de tudo aquilo, mas sentia que uma etapa fora vencida. Agora só precisava sobreviver ao que mais o estivesse esperando lá em cima.
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